Você não me entende porquê você nos divide em dois: eu e você. Não existe divisão. Eu não sou só eu. Eu sou também você (…) Caio Fernando Abreu
Você berra e me xinga. Eu, não visto a roupa de vagabunda e, então choro a dureza das suas palavras. Eu falo o mesmo de você, do quanto você serve apenas para curtição e não para namorar. Digo que jamais te apresentaria meus pais porque você é homem da vida, homem de cama. Você faz minha fama. Me acusa das vontades que tive e das atitudes que não tive. Eu viro o rosto, você aumenta o tom da voz. Começo a falar das minhas eternas dúvidas; e você, sobre como a gente nunca deu certo mesmo. Eu te bato na cara, você me empurra no sofá. Me aperta. Eu te arranho. Te expulso da minha casa, te mando ir embora. Você vira às costas e manda eu nunca mais te procurar. Eu duvido do seu amor, dou pra maldizer todas as promessas que você fez, que nós fizemos. Digo que você está jogando fora o meu amor. Você debocha dizendo que ele nunca existiu. “Você dormiu com todas elas”, eu acuso de cabeça quente. E você de voz branda afirma como se o peito rasgasse, “Você quis dormir com ele”. E vai embora e não diz mais nada. E eu berro em silêncio todas as coisas que eu não disse e soco as almofadas por toda a raiva que eu não extravazei. No chão do corredor, com as luzes apagadas de quem não tem forças nem mesmo para respirar, meu último suspiro sai em forma de lágrima. Eu te diria sobre como nunca quis outro homem que não fosse você. Você me abraçaria e falaria o quanto me ama, e que se estava ali era porque não havia dúvida alguma do que você queria. E eu que nunca tive dúvida sobre querer ou não você. Porque eu sempre quis. Por opção. Tantos homens vieram e foram e quantos mais haverão de vir, mas vai ser sempre você, porque tem sido sempre você. Eu não deixaria você ir embora pensando de mim o que bem quisesse. Não, não pense. Você sabe muito bem que não sou como as outras. E eu sei que você não é igual à todos os homens. Por isso que eu quis te apresentar meu pai, por isso que eu quis e quero e sonho tanto com uma vida com você. Por amor. Amor que jamais me permitiria estar nos braços de outro homem. Você quer saber? Nós saimos sim. Eu, ele. E eu só fiz uma coisa além de falar de você e de como eu queria te ter de volta, chorar. Eu chorei como sempre choro. E ele se aproximou e me abraçou e disse “Corre atrás do cara”. E então no dia seguinte, naquele domingo de sol, eu fiz isso. Eu quis você de volta, por uma, duas, três vezes até você aceitar voltar. E pediria quantas mais fossem necessárias para não te perder de vista. Para te ter aqui comigo. Mas agora você foi embora. Vou dormir achando que você preferia estar na praia ao som de axé com seus amigos, e você, pensando mesmo que eu quis outro homem. Nós traimos sim. Traimos o nosso amor. Essa noite, a gente dorme separado.
