Arquivo de outubro \23\UTC 2010

Depois de Rodrigo

Depois de Rodrigo e do nosso fim, eu vivi em um mês mais emoções do que em um ano, do que em uma vida. Tive de repente mais altos e baixos do que em toda a minha existência.

Depois de Rodrigo, eu perdi a conta das noites em claro, dos choros descompensados. Só não perdi a conta dos dias que iam se passando. E vivi o luto da primeira semana, da segunda semana, da terceira semana. Do primeiro mês. Do um mês e um dia. Do um mês e dois dias. Um mês e três. Um mês e quatro…

Comecei o ritual de apagar os dias da semana riscando-os do calendário querendo talvez que tudo deixasse de existir, mas afirmando cada dia mais tudo aquilo que ainda existia. Não entre a gente. A gente deixou de existir faz tempo. Mas tudo dele que havia ficado dentro de mim.

Depois de Rodrigo, os dias pareciam sem cor. Mesmo os dias de sol pareciam tristes, velhos, perdidos. A vida tinha perdido o cheiro do perfume importado, do shampoo de frutas. Aquela certeza do gostar que nos invade todos os dias quando acordamos foi tomada pelo vazio do não estar mais junto. Então me cobria inteira com um cobertor de vida e não vivia nada que não fossem apenas os sonhos que eu ainda tinha da gente e que tanto me faziam chorar e que me impossibilitavam de levantar.

Depois de Rodrigo, eu me sentia impossibilitada mesmo de viver. De viver qualquer coisa que me arrancasse um sorriso longe dele. De qualquer coisa que o afastasse do meu pensamento. Como se não houvesse espaço para nada mais em mim que não tivesse Rodrigo e sua barba ruiva e sua boca grossa.

Eu comecei a beber para tentar esquecê-lo e sempre o encontrava. E saía para ver gente e sempre o via entre todos. Naqueles dias em que eu me afastava do lençol e ia pra rua, via a gente no ônibus, nas mesas do pátio, nos cinemas. Lembrava da cama quebrada de tanta paixão, dos banhos divididos, dos almoços de sábado, de domingo. A gente estava até nas músicas do celular, nos programas de televisão, nas conversas de amigos.

Depois de Rodrigo, e mesmo antes dele, ele estava presente em tudo. E agora ausente também, então eu chorava. Eu chorava a falta, os erros, os acertos, os sorrisos, as lágrimas, as confidências, as conversas, as brincadeiras, os desencontros, os desentendimentos, os dias inteiros de cama e de sexo. Me dei conta de que me doía toda depois de Rodrigo e durante Rodrigo e antes de Rodrigo. Rodrigo me causava dor o tempo todo. “Culpa do amor,” me disseram. Do amor tão forte que existiu, existia, existe, existira, existirá, existiria.

Depois de Rodrigo passei a me perder também no tempo. As noites de embriaguez não me deixavam saber se era mesmo domingo ou quem sabe quarta. Se era ontem ou hoje. Perder a noção do tempo é perder também a noção da vida, não? Perdi tudo depois que perdi Rodrigo.

Perdi o charme, perdi o sorriso, perdi as vontades. Perdi sonhos, metas. Perdi de repente o melhor e pior homem da minha vida. Junto com essas vieram também as oportunidades perdidas. O estágio um, a bolsa dois, a festa tal, o homem outro. Depois de Rodrigo, me perdi de mim e do mundo e de tudo que talvez pudesse valer a pena. Mas porque no luto do amor que foi, do amor que acabou, eu gostava de achar ou mesmo de sentir que nada mais valia a pena sem Rodrigo.

Rodrigo me enlouqueceu. De amores, de dores. Na cama, no chão, no banheiro das festas. Na rua, no meio do centro da cidade, no ponto de ônibus. Pro bem e pro mal, ele estava lá. E depois de Rodrigo, não tinha me restado mesmo mais nada.

O nada que eu, quando bêbada, vomitava abraçando a privada como se fosse Rodrigo. Mas não era Rodrigo. Era só o que tinha me restado depois dele. Depois da gente.

O café para acordar, a comida para sobreviver. Interpretava meu papel de gente viva todos os dias em que tinha forças para isso, e depois me trancava no quarto e chorava Rodrigo e bebia Rodrigo e xingava Rodrigo e amava Rodrigo e queria Rodrigo e matava Rodrigo. Em um mês de término eu vivi Rodrigo como nunca vivi homem algum.

Vivi Rodrigo com Gabriel, Lucas, Pedro, Paulo, Hugo, Antônio, Isabel, Guilherme, Caio, Tomaz, Felipe, Fernando, Tiago, Letícia, Rafaela, Pedro, Otávio, Danilo, Luiz, Rafael, Mateus, Daniel, João, Eduardo. Não eram Rodrigo. Eram só depois de Rodrigo.

E depois de Rodrigo e das ressacas por Rodrigo e das dores pela falta de Rodrigo vinham as coisas ditas por Rodrigo. Cada noite de morte e dor e falta e saudade era seguida de um reconstruir meu para a próxima noite de morte e dor e falta e saudade. Ele sempre ligava. Ou nem sempre e por isso então toda a morte e toda a dor.

Ele não vivia um depois de Anna; ele vivia toda uma vida que eu não conseguia viver sem ele. Nem depois dele. Eu me tornei patética por amar Rodrigo e querer Rodrigo depois que ele se foi.

Só que também cansada de ser patética, cansada de dor, de morte, de saudade, de homens e mulheres que não eram Rodrigo, de não-vida, eu comecei a amar a única pessoa nessa história toda que parecia não receber amor algum: eu.

Me amando cansei de ouvir Rodrigo, de pensar Rodrigo, de querer Rodrigo, de chorar Rodrigo, de viver Rodrigo. Eu cansei de Rodrigo. E de dar tanto espaço para ele e de não ter um cantinho sequer que fosse para mim.

Eu joguei fora as lembranças de Rodrigo. Eu apaguei os números de Rodrigo, os e-mails de Rodrigo, as fotos de Rodrigo. E tudo isso só porque Rodrigo foi morrendo e se apagando aqui dentro durante todo esse tempo também. Durante cada um dos muitos dias riscados do calendário. Durante cada vômito. Durante cada café pra viver. Durante cada bebedeira. Durante cada choro descompensado. Durante cada dia de sol triste, velho, perdido.

Desejei mais Rodrigo e seu sorriso do que a mim mesma e o meu sorriso. Quis tanta alegria para ele que deixei a minha alegria de lado.

A dor por fim não era nem mesmo de morte como eu pensava. Era de vida. Era a vida toda que existia do lado de fora daquela janela depois de Rodrigo. A vida querendo me mostrar que ela estava continuando enquanto eu vivia aquele homem que já se foi.

Guardei Rodrigo assim, com todo esse amor e essa dor, no passado. E, finalmente, abri a janela.

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O rapaz de Turim

Eu desliguei o telefone aos prantos exatamente como tenho feito todos os dias antes de dormir no último mês. O chamei de babaca duas vezes por ele ter berrado duas vezes para a minha dor de cotovelo, essa coisa que me restou quando passei a ser ex, que ele estava solteiro. E que solteiro faz isso mesmo: vai a todas as festinhas final de semana. Foi então que caiu minha ficha de que tudo tinha mesmo acabado, que essa esperança que eu vinha alimentando de uma reconciliação era só ilusão pra (sobre)viver, que os oito tocos eu dava numa mesma noite eram à toa, porque enquanto isso ele achava a felicidade dele com uma piranhazinha qualquer numa festinha qualquer.
Eu não me arrependi da ligação desligada assim como ele não se arrependeu da outra boca beijada; cada um com a sua razão: ele, solteiro; eu, machucada.
Mas esse solteiro não é nem o rapaz de Turim. O rapaz de Turim é outro, veio depois. Na verdade, veio antes. Mas nesse caso apareceu mesmo depois. Depois do telefone desligado e de mais algumas mensagens trocadas. Eu o conheci já faz quase um ano, numa festa. E depois de algumas cervejas ele me pediu um beijo, e depois de alguns beijos ele me pediu o telefone, e depois do telefone me pediu uma noite. A noite eu acabei negando. E por isso então ele me convidou para viajar com ele no dia seguinte. Um louco! Lindo, mas louco. O louco mais lindo da porra da festa e da vida toda que eu, louca, ou não, dispensei.
A ligação do dia seguinte aconteceu mesmo quase dois meses depois, porque homem nenhum (NENHUM!) liga no dia seguinte. Ele ligou e eu, que não tinha o número, atendi. E desliguei segundos depois porque não sabia o que falar para o cara que lembrava de mim, mas de quem eu não lembrava nem o nome.
E então eu achei que a história toda tivesse morrido. Morrido como eu estava morrendo quando recebi a mensagem do solteiro falando dos nossos desencontros. Morrido como eu venho morrendo todos os dias quando o despertador toca e eu tenho de viver ou como quando choro até meu corpo sentir fraqueza de existir e ceder ao sono. Só que eu não estava morta, e o rapaz louco-lindo-30-anos-modelo de Turim ainda tinha meu telefone, ainda lembrava de mim, e Deus ou Jeová ou sorte ou azar ou acaso ou destino resolveu me dar uma forcinha. Depois de ter dito ‘não’ para o pedido de casamento de um crente, eu entrei numa maré de azar que nem banho de sal grosso com arruda e incenso vinha dando conta. Mas as coisas mudaram na melhor hora da merda de dia e de vida que eu tenho tido. Porque se você chora por um cara que prefere pegar uma piranhazinha qualquer numa festinha qualquer ao invés de te ligar porque cansou de vocês e, principalmente, de você, o melhor que pode acontecer enquanto você vive a trilha sonora de Acreditar na voz de Beth Carvalho é receber a ligação de uma história antiga. Mesmo que essa história antiga esteja bêbada.
Atendi achando que era o tal solteiro que eu gosto mas que não gosta mais de mim, porque eu adoro me iludir e adoro essa fantasia que eu crio toda vez que acho que o amor poderia falar mais alto e tal. Atendi com voz de enterro de vida, voz de nariz entupido de tanto choro, de coração doído de viver, e ele do outro lado da linha perguntou, “Que foi que houve com a dona do melhor beijo da minha vida?” E eu, que não sou boba nem nada, disse, “Tava aqui me arrependendo de não ter ido pra Turim com você.” Ele riu.

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