O rapaz de Turim

Eu desliguei o telefone aos prantos exatamente como tenho feito todos os dias antes de dormir no último mês. O chamei de babaca duas vezes por ele ter berrado duas vezes para a minha dor de cotovelo, essa coisa que me restou quando passei a ser ex, que ele estava solteiro. E que solteiro faz isso mesmo: vai a todas as festinhas final de semana. Foi então que caiu minha ficha de que tudo tinha mesmo acabado, que essa esperança que eu vinha alimentando de uma reconciliação era só ilusão pra (sobre)viver, que os oito tocos eu dava numa mesma noite eram à toa, porque enquanto isso ele achava a felicidade dele com uma piranhazinha qualquer numa festinha qualquer.
Eu não me arrependi da ligação desligada assim como ele não se arrependeu da outra boca beijada; cada um com a sua razão: ele, solteiro; eu, machucada.
Mas esse solteiro não é nem o rapaz de Turim. O rapaz de Turim é outro, veio depois. Na verdade, veio antes. Mas nesse caso apareceu mesmo depois. Depois do telefone desligado e de mais algumas mensagens trocadas. Eu o conheci já faz quase um ano, numa festa. E depois de algumas cervejas ele me pediu um beijo, e depois de alguns beijos ele me pediu o telefone, e depois do telefone me pediu uma noite. A noite eu acabei negando. E por isso então ele me convidou para viajar com ele no dia seguinte. Um louco! Lindo, mas louco. O louco mais lindo da porra da festa e da vida toda que eu, louca, ou não, dispensei.
A ligação do dia seguinte aconteceu mesmo quase dois meses depois, porque homem nenhum (NENHUM!) liga no dia seguinte. Ele ligou e eu, que não tinha o número, atendi. E desliguei segundos depois porque não sabia o que falar para o cara que lembrava de mim, mas de quem eu não lembrava nem o nome.
E então eu achei que a história toda tivesse morrido. Morrido como eu estava morrendo quando recebi a mensagem do solteiro falando dos nossos desencontros. Morrido como eu venho morrendo todos os dias quando o despertador toca e eu tenho de viver ou como quando choro até meu corpo sentir fraqueza de existir e ceder ao sono. Só que eu não estava morta, e o rapaz louco-lindo-30-anos-modelo de Turim ainda tinha meu telefone, ainda lembrava de mim, e Deus ou Jeová ou sorte ou azar ou acaso ou destino resolveu me dar uma forcinha. Depois de ter dito ‘não’ para o pedido de casamento de um crente, eu entrei numa maré de azar que nem banho de sal grosso com arruda e incenso vinha dando conta. Mas as coisas mudaram na melhor hora da merda de dia e de vida que eu tenho tido. Porque se você chora por um cara que prefere pegar uma piranhazinha qualquer numa festinha qualquer ao invés de te ligar porque cansou de vocês e, principalmente, de você, o melhor que pode acontecer enquanto você vive a trilha sonora de Acreditar na voz de Beth Carvalho é receber a ligação de uma história antiga. Mesmo que essa história antiga esteja bêbada.
Atendi achando que era o tal solteiro que eu gosto mas que não gosta mais de mim, porque eu adoro me iludir e adoro essa fantasia que eu crio toda vez que acho que o amor poderia falar mais alto e tal. Atendi com voz de enterro de vida, voz de nariz entupido de tanto choro, de coração doído de viver, e ele do outro lado da linha perguntou, “Que foi que houve com a dona do melhor beijo da minha vida?” E eu, que não sou boba nem nada, disse, “Tava aqui me arrependendo de não ter ido pra Turim com você.” Ele riu.

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