Depois de Rodrigo e do nosso fim, eu vivi em um mês mais emoções do que em um ano, do que em uma vida. Tive de repente mais altos e baixos do que em toda a minha existência.
Depois de Rodrigo, eu perdi a conta das noites em claro, dos choros descompensados. Só não perdi a conta dos dias que iam se passando. E vivi o luto da primeira semana, da segunda semana, da terceira semana. Do primeiro mês. Do um mês e um dia. Do um mês e dois dias. Um mês e três. Um mês e quatro…
Comecei o ritual de apagar os dias da semana riscando-os do calendário querendo talvez que tudo deixasse de existir, mas afirmando cada dia mais tudo aquilo que ainda existia. Não entre a gente. A gente deixou de existir faz tempo. Mas tudo dele que havia ficado dentro de mim.
Depois de Rodrigo, os dias pareciam sem cor. Mesmo os dias de sol pareciam tristes, velhos, perdidos. A vida tinha perdido o cheiro do perfume importado, do shampoo de frutas. Aquela certeza do gostar que nos invade todos os dias quando acordamos foi tomada pelo vazio do não estar mais junto. Então me cobria inteira com um cobertor de vida e não vivia nada que não fossem apenas os sonhos que eu ainda tinha da gente e que tanto me faziam chorar e que me impossibilitavam de levantar.
Depois de Rodrigo, eu me sentia impossibilitada mesmo de viver. De viver qualquer coisa que me arrancasse um sorriso longe dele. De qualquer coisa que o afastasse do meu pensamento. Como se não houvesse espaço para nada mais em mim que não tivesse Rodrigo e sua barba ruiva e sua boca grossa.
Eu comecei a beber para tentar esquecê-lo e sempre o encontrava. E saía para ver gente e sempre o via entre todos. Naqueles dias em que eu me afastava do lençol e ia pra rua, via a gente no ônibus, nas mesas do pátio, nos cinemas. Lembrava da cama quebrada de tanta paixão, dos banhos divididos, dos almoços de sábado, de domingo. A gente estava até nas músicas do celular, nos programas de televisão, nas conversas de amigos.
Depois de Rodrigo, e mesmo antes dele, ele estava presente em tudo. E agora ausente também, então eu chorava. Eu chorava a falta, os erros, os acertos, os sorrisos, as lágrimas, as confidências, as conversas, as brincadeiras, os desencontros, os desentendimentos, os dias inteiros de cama e de sexo. Me dei conta de que me doía toda depois de Rodrigo e durante Rodrigo e antes de Rodrigo. Rodrigo me causava dor o tempo todo. “Culpa do amor,” me disseram. Do amor tão forte que existiu, existia, existe, existira, existirá, existiria.
Depois de Rodrigo passei a me perder também no tempo. As noites de embriaguez não me deixavam saber se era mesmo domingo ou quem sabe quarta. Se era ontem ou hoje. Perder a noção do tempo é perder também a noção da vida, não? Perdi tudo depois que perdi Rodrigo.
Perdi o charme, perdi o sorriso, perdi as vontades. Perdi sonhos, metas. Perdi de repente o melhor e pior homem da minha vida. Junto com essas vieram também as oportunidades perdidas. O estágio um, a bolsa dois, a festa tal, o homem outro. Depois de Rodrigo, me perdi de mim e do mundo e de tudo que talvez pudesse valer a pena. Mas porque no luto do amor que foi, do amor que acabou, eu gostava de achar ou mesmo de sentir que nada mais valia a pena sem Rodrigo.
Rodrigo me enlouqueceu. De amores, de dores. Na cama, no chão, no banheiro das festas. Na rua, no meio do centro da cidade, no ponto de ônibus. Pro bem e pro mal, ele estava lá. E depois de Rodrigo, não tinha me restado mesmo mais nada.
O nada que eu, quando bêbada, vomitava abraçando a privada como se fosse Rodrigo. Mas não era Rodrigo. Era só o que tinha me restado depois dele. Depois da gente.
O café para acordar, a comida para sobreviver. Interpretava meu papel de gente viva todos os dias em que tinha forças para isso, e depois me trancava no quarto e chorava Rodrigo e bebia Rodrigo e xingava Rodrigo e amava Rodrigo e queria Rodrigo e matava Rodrigo. Em um mês de término eu vivi Rodrigo como nunca vivi homem algum.
Vivi Rodrigo com Gabriel, Lucas, Pedro, Paulo, Hugo, Antônio, Isabel, Guilherme, Caio, Tomaz, Felipe, Fernando, Tiago, Letícia, Rafaela, Pedro, Otávio, Danilo, Luiz, Rafael, Mateus, Daniel, João, Eduardo. Não eram Rodrigo. Eram só depois de Rodrigo.
E depois de Rodrigo e das ressacas por Rodrigo e das dores pela falta de Rodrigo vinham as coisas ditas por Rodrigo. Cada noite de morte e dor e falta e saudade era seguida de um reconstruir meu para a próxima noite de morte e dor e falta e saudade. Ele sempre ligava. Ou nem sempre e por isso então toda a morte e toda a dor.
Ele não vivia um depois de Anna; ele vivia toda uma vida que eu não conseguia viver sem ele. Nem depois dele. Eu me tornei patética por amar Rodrigo e querer Rodrigo depois que ele se foi.
Só que também cansada de ser patética, cansada de dor, de morte, de saudade, de homens e mulheres que não eram Rodrigo, de não-vida, eu comecei a amar a única pessoa nessa história toda que parecia não receber amor algum: eu.
Me amando cansei de ouvir Rodrigo, de pensar Rodrigo, de querer Rodrigo, de chorar Rodrigo, de viver Rodrigo. Eu cansei de Rodrigo. E de dar tanto espaço para ele e de não ter um cantinho sequer que fosse para mim.
Eu joguei fora as lembranças de Rodrigo. Eu apaguei os números de Rodrigo, os e-mails de Rodrigo, as fotos de Rodrigo. E tudo isso só porque Rodrigo foi morrendo e se apagando aqui dentro durante todo esse tempo também. Durante cada um dos muitos dias riscados do calendário. Durante cada vômito. Durante cada café pra viver. Durante cada bebedeira. Durante cada choro descompensado. Durante cada dia de sol triste, velho, perdido.
Desejei mais Rodrigo e seu sorriso do que a mim mesma e o meu sorriso. Quis tanta alegria para ele que deixei a minha alegria de lado.
A dor por fim não era nem mesmo de morte como eu pensava. Era de vida. Era a vida toda que existia do lado de fora daquela janela depois de Rodrigo. A vida querendo me mostrar que ela estava continuando enquanto eu vivia aquele homem que já se foi.
Guardei Rodrigo assim, com todo esse amor e essa dor, no passado. E, finalmente, abri a janela.





#1 by Larissa on 24/10/2010 - 1:04 am
lindo e indescritível.
#2 by Fernanda de Freitas on 25/10/2010 - 1:39 pm
abre a janela e deixa o sol entrar…
vem pra europa que eu te dou todo amor e carinho! ;)
#3 by marcella on 03/11/2010 - 12:35 am
nunca ninguém descreveu uma dor de amor tão bem!
não sei se doi igual, mas lendo vc, me lembrei de toda uma dor que vivi. e como doeu.
#4 by Lívia on 03/11/2010 - 12:00 pm
Quanta sensibilidade!
#5 by everton on 06/11/2010 - 5:48 pm
“Era a vida toda que existia do lado de fora daquela janela depois de Rodrigo.”
Metafórico, amei!
#6 by Matheus Pinheiro on 09/12/2010 - 10:34 pm
Porque todo amor parece o último quando a gente tem 20 anos.
#7 by Lorena on 01/02/2011 - 10:38 am
“Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso ás vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como “estou contente outra vez”.
#8 by Clarissa on 10/05/2011 - 2:26 pm
Perdida nas obrigações e em suas consequências emocionais acaba faltando espaço pras coisas mais deliciosas desse mundo, entre elas, vir aqui matar a saudade dessa mulher que tem qualquer coisa que chora, qualquer coisa que ri, qualquer coisa que sente saudade… você é vida!