Arquivo de março \11\UTC 2011

Do tempo, enfim

Agora pra escrever eu acendo um cigarro. Eu deixo do lado alguns bombons, o cinzeiro, um copo de alguma bebida do dia. Tenho tido dias tristes, insuportavelmente dolorosos. E por isso voltei a fumar. Pra acalmar a dor e atrapalhar o choro. De tanto cigarro e lágrima já estou aprendendo a sincronizar os dois, mas o mundo continua me doendo a alma. E o quarto agora fede por causa da fumaça constante.
As cartas de tarot estão espalhadas em cima da cama. Um nove de paus para meus desgastes emocionais, mas o sol na casa quatro e a lua na casa sete não me ajudam. Nem aos astros mais eu peço socorro; estou deixando as coisas assim. As unhas também estão por fazer, a falta de maquiagem e de noites dormidas revelam boas olheiras abaixo dos olhos. Faço o quê? Mudo de vida? De país? Queria só mudar de nome. O telefone agora é outro. O endereço em breve também. Estou saindo de casa, vou morar sozinha. Sabe, não estou com medo algum dessas mudanças todas nem da solidão. Acabei me acostumando comigo mesma, com as dores, com as decepções. O apartamento vazio de outro alguém não me espanta. Melhor mesmo não precisar me esconder de mais ninguém e só me encarar no espelho.
Comprei a cama nova ontem. Minha mãe me alertou sobre não valer a pena levar a minha. Também não quero. Chorei tanto nesse colchão que preciso de um novo para as novas ou antigas dores que me acompanharão.
Tem notícias do Ge? Soube que ele quis abandonar o mundo porque não aguentava mais a vida. Me deu um medo de não ter forças pra aguentar a minha também. Já pensei algumas vezes nisso. Mas acho loucura, não sei. Eu sou triste mas não sou fraca. Gosto de pensar que não ter força não me impede de ter coragem. Ele não teve né? Nem uma coisa nem outra. Mas sabe, não o culpo. Uma dia essa vontade toda que a gente gosta de ter acaba mesmo; os últimos anos foram tão difíceis pra ele, pra mim, pra você. Vou fazer uma reza pra ele. Remontei meu altar de pirâmides, e o nome de todo mundo vai pra lá, inclusive o seu.
Queria te contar que João me deixou. Ou eu o deixei. Não sei nem bem como foi, e quem foi pra que lado. Sei que o sonhos todos se foram. A gente deixou mesmo de querer estar perto um do outro e assim acabou. Acho que de vez. Não estou esperando pelo retorno dele. Na verdade, não tenho esperado mesmo mais nada. Estava ansiosa só pelo fim do carnaval. Eu não sei lidar com a felicidade do mundo. Essas alegrias me fazem parecer mais triste do que realmente sou. Ou me deixam mais triste do que normalmente sou. Vai saber.
O carnaval é como aqueles últimos dez segundos antes da virada do ano que as pessoas contam juntas em coro e com um sorriso no rosto. Sempre acho que vou morrer no final da contagem. Sobrevivi todos esses trinta e um anos. Ok, ok. Trinta. Trinta e um só sexta que vem. Mas não quero comemoração. Esse costume que as pessoas tem de comemorar o que se aproxima do fim me espanta. No fundo, só me espanta porque tenho vontade então de viver mais. É a tal da contagem que quando termina e nada acaba me enche o peito de vida, mas eu continuo mesmo vazia por dentro.
Aí o carnaval chegou ao fim. E nem estou parafraseando Marcelo Camelo. Estou só comemorando porque vou poder voltar a sambar como sambo o ano todo. Não gosto de sambar porque todo mundo está sambando e junto e com um sorriso estampado na cara. Será que eu não sei lidar com a felicidade? Vai ver eu nem sou verdadeiramente triste. É só uma limitação. Cada um com a sua.
E você? Eu sei que não vai mais ligar nem mandar email. Também não espero mais nada disso. Você deve mesmo estar vivendo sua vida feliz com esse sorriso no rosto cheio de gente ao redor. Sua vida feliz mas medíocre com seu sorriso torto e falso mas que você coloca pra parecer feliz para todas essas pessoas que não são de verdade nada suas, mas que estão sempre ali porque você não suporta a solidão e não se suporta. Minha tristeza tem isso de bonito. Eu não preciso proclamá-la aos quatro ventos. Não como você e sua felicidade inventada. Eu e o Ge temos isso de diferente de você, sempre tivemos. A gente não finge ser feliz pra esconder a tristeza. Eu choro todos os dias, ele corta os pulsos. E você inventa vida pra não tentar se matar de novo no segundo seguinte. Depois diz que vai vivendo, mas você só tem sobrevivido. O Ge quis te mostrar que até a tristeza pode ser boa desde que você a controle. Perdi a conta dos choros, dos cigarros, dos textos miseráveis, mas não me perco. E você? Se achou? Se encontrou nesse seu emaranhado de vida inventada e sorrisos adesivados?
Esses dias encontrei um amigo no bar e entre uma cerveja e outra ele disse uma frase interessante, Tá na hora de entender o amargo. Ele falava da cerveja. Eu pensei na vida. Porque eu acho que eu penso muito na vida. Mais do que as outras pessoas, mais do que eu deveria. Penso mais do que vivo, confesso. Mas mais do que entender o amargo, eu sei que eu preciso mesmo é aprender a aceitar o amargo. Não a gostar. Não acredito que as pessoas precisem gostar daquilo que não as agrada ou agradou. Mas aceitar que existem mesmo coisas desagradáveis.
Acho que não consegui entender nem aceitar o amargo do inverno passado. Nem amargo algum da vida inteira. Aí estou assim, fedendo a cigarro, com esse amargo na boca, na vida e sofrendo o amor que se foi pra vida toda e nunca mais voltou. Faço o quê? Mudo de vida? De país? Queria só mudar de nome, sabe. Já que o telefone agora é outro, e o endereço em breve também. Mas eu, Zé, continuo a mesma. Igualzinha.

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