Arquivo de abril \27\UTC 2011
O tal do jiujiteiro
Publicado por Anna Luiza Azevedo em Escritos em 27/04/2011
Eu vou chamá-lo de Paulo. Mas ele, de verdade, não se chama Paulo. Paulo é mesmo só pra dar nome. Na verdade, eu vou chamá-lo de PAU-lo. Porque ele foi mesmo só isso e nada mais. Só isso, mesmo que eu tenha querido algo mais.
Eu conheci Paulo há uns três anos, vai saber. Não me lembro direito do quando, mas lembro muito bem do como. Paulo estudou comigo pouco mais ou menos que um semestre, mas foi capaz de me deixar com tesão no primeiro dia e com o primeiro sorriso. Ele e seu rosto cheio de sardas e seu espanhol em que o “ll” tem som de “j” ao invés de “lh”.
Eu passei a sentar do lado dele e torcer para que ele se sentasse ao meu lado só porque ele tinha um cheiro gostoso. Cheiro de alecrim, eu acho. Não sei. Sei só que gostava e que torcia todas as terças para que cheiro de alecrim ou de qualquer-outra-coisa se sentasse ao meu lado.
Das dezenove horas até às vinte e uma e quinze de todas as terças eu passei então a dedicar toda a minha energia e qualquer poder de sedução feminina a Paulo. Ah, Paulo… Ele não queria nada comigo. Ele namorava, ficava, estava casado, ia casar, sei lá. Não importa. O fato é que ele não correspondia investida alguma.
E pouco depois, ele sumiu. E que fique claro que isso é muito importante para o desenrolar dessa história. Porque Paulo some.
Sumiu. Nos encontramos uma vez no ônibus. Acaso. Me chamou para sentar ao lado dele, e eu fiz que não sentia nada por ele, só frio porque no dia estava mesmo muito frio, nada mais. Ele ia morar fora e junto com a tal garota de quem era namorado, marido, amante. E ela queria filhos. Nesse dia, eu soube sei lá, que eu ia viver o resto da minha vida com aquele tesão reprimido e a vontade louca de ter dado pra Paulo e ele nunca me comeria porque não queria me comer. Porque não fazia questão alguma disso.
Quando ele terminou até me procurou, mas eu estava dando para o pau-lo de outro e sou boba e vivo monogamias que nunca dão certo ou em coisa alguma, mas que eu gosto porque também já aprendi a acreditar que podem dar em alguma coisa e que se não derem em dois meses eu estou pronta pra outra; então acabei fugindo das investidas e negando alguns convites para sairmos.
No início desse ano, Paulo retornou. E durante um mês inteiro, me chamou para sair todos os dias. E disse para mim todas aquelas coisas que toda mulher triste e carente gosta de ouvir. Eu então acabei iludida, ou me iludindo. Por fim, depois de três longos anos, me arrumei para finalmente sair com Paulo e dar para Paulo. E selecionei a melhor calcinha, o melhor perfume.
A noite foi maravilhosa. Só que ele fez comigo o que nenhum homem deveria fazer. Ou eu deixei que ele fizesse comigo o que não deveria. Paulo me apaixonou. Com o beijo, com o carinho na nuca, com o cheiro na orelha, com a mão nas pernas, com o corpo quente. E depois, Paulo me olhou e me pediu, Não some. E claro que depois daquelas quase oito horas de tudo e mais um pouco que eu vinha esperando há três anos, eu não sumiria de jeito nenhum.
Paulo fez depois o que nenhum homem faz: me ligou. E falou comigo no dia seguinte e no dia depois do dia seguinte e no outro dia depois do dia seguinte. E depois fez o que? Paulo sumiu. Com compromisso marcado, com promessa de tarde de muito sexo e suor. Paulo sumiu. Da internet, do mapa, da minha vida. Entenderam o por quê disso ser tão importante?
Se você sai com um cara chato e ele não te liga, seu ego fica um pouquinho abalado, claro. Porque afinal, você aturou um mala com muita consideração e ele ainda sim não te ligou. Se você sai com um cara legal, não dá pra ele e ele não te liga, você fica triste porque ele era legal e você não quis a fama de vagabunda, mas entende que ele não te ligou porque de repente ele queria uma vagabunda. Agora se você sai com um cara legal, dá pra ele sendo vagabunda ou não, e ele te liga e te chama para sair de novo e depois some, no mínimo, você deprime. Deprimi. E chorei dia e noite pelo pau do Paulo, pelo Paulo, por mim sem ele. Sem eles.
Uma semana depois Paulo reapareceu, e eu já tinha deixado de lado o papel de otária e não estava mais chorando seu sumiço. Reapareceu dizendo que tinha ido viajar, esquecendo completamente o encontro marcado, mas que estava com saudade e que queria me ver. Acha que eu fiz o que? Vesti novamente o papel de otária, claro. Porque mulher faz coisas incríveis por chocolate e por um homem bom de cama.
A história porém, não ficou nada mais fácil. Ele começou a fugir de mim, ou se tornou mais difícil, não sei. Continuou, porém, me convidando para sair, dizendo sentir minha falta, falando que me queria. Paulo me deixava confusa.
Até que um dia, Paulo me disse assim, “Não tente me entender”. E eu me dei conta de que a graça toda não era nem o cheiro de alecrim ou de qualquer-outra-coisa. Não era nem o quanto ele conseguia fazer algo direito em cima de um colchão ou se fazer de interessante. Eu gostava mesmo era de tentar entendê-lo, numa espécie de enigma a ser decifrado, de mistério. E quando ele disse para eu não tentar entender, ele acabou com toda a pouca magia que de verdade existia. E ficou sendo só Paulo. Só pau. Só sexo e nada mais. Só isso. Uma pena. Não pra mim. Uma pena pra ele. Mentira. Eu continuo morrendo de saudade. E vontade. Bobinha…




