Arquivo de setembro \24\UTC 2011
Para curar a dor
Publicado por Anna Luiza Azevedo em Escritos em 24/09/2011
Everett Ruess era estranho. Meio diferente. Mas ele e McCandless pelo menos tentaram seguir seus sonhos. Isso é que faz a grandeza deles. Eles tentaram. Pouca gente faz isso. Jon Krakauer, autor de Into The Wild.
Eu resolvi hoje reescrever esse texto. Ele foi pro papel pela primeira vez em julho de dois-mil-e-nove. Naquela época, eu estava mesmo precisando me curar de uma certa dor. Hoje, cá estou eu mais uma vez tentando com todos os meios, sejam eles meus ou não, me curar novamente. Eu, que pra catar meus caquinhos preciso mesmo escrever e reinventar vida a cada dia de morte, resolvi então apenas reeditar. Porque a dor é mesma. Só a intensidade e a data que não.
Sempre que preciso curar dores, eu resolvo me drogar de tudo que existe a minha volta. Eu queimo elogios pra me fazer a cabeça. Cheiro loucura pra me sentir mais livre. Injeto em mim uma felicidade tão falsa, mas tão falsa, que só mesmo correndo nas veias pra se tornar verdade. Coloco de volta no rosto essa minha máscara de felicidade e indiferença só para poder me reinventar outra vez; só para que, de repente, aqui, não tenha mais espaço para sofrimento algum. E minto para mim mesma que não sinto mais dor só para, quem sabe assim, me curar dela. E não me permito noites de choro nem de tristeza. Me embriago de vez nessa minha fantasia de esquecimento que acabo esquecendo. E corro da dor. E corro do sofrimento. E corro das pessoas. E corro e fujo e me escondo tão dentro de mim e por baixo dessa armadura tão forte que nada nem ninguém me encontra. Nem mesmo eu. Nessa sombra de tudo que se é sem querer mais ser, eu me permito algumas lágrimas. Algumas para desinchar o peito, para acalmar as dores. E sofro um pouquinho para passar. Mas só um pouquinho.
Eu fujo de tudo. Eu finjo tudo isso por não aguentar mais nada. Eu não aguento. Eu não acredito. Não acredito no amor. Amor é uma mentira. E toda mentira quando vivida, acaba parecendo verdade. Mas não vou mais me enganar. Amor não existe. Porque se existisse, duraria para sempre. E como não dura para sempre não é amor. Estou ficando amarga com a vida. Acho que por conta desse gosto amargo na garganta de tudo que eu não consigo mais digerir. Foi ficando, foi ficando. E agora não vai mais embora. Então me forço mesmo a acreditar que amor não existe, porque assim quem sabe me curo. Ou espero me curar. Se for mentira, repito até que seja verdade. E no dia que for, esqueço.
Esqueço essa dor que não me deixa esquecer. Me esquecer. Te esquecer. Nos esquecer. Esqueço todas as lembranças que no momento me corroem por dentro. Esqueço para curar a dor que me persegue dentro de mim mesma e que me encontra por baixo de toda minha armadura chorando algumas lágrimas. Algumas para desinchar o peito, para acalmar as dores. Me encontra sofrendo um pouquinho para passar. Mas só um pouquinho. Porque eu não vou mais me permitir rios de lágrimas, nem noites de insonia, nem declarações de amor. Me reinvento sem você e te resignifico para mim e para tudo o mais que existe nessa vida só para não ceder mais ao seu sorriso ou ao seu olhar ou ao seu toque. E assim justifico minhas mágoas, seus erros, nossos desacertos, minha descrença.
A verdade é a podridão dos desejos. A verdade é que já que ninguém se tem, ninguém se entrega. O perfume só serve mesmo para disfarçar a essência. E quando a gente finge ser forte, é só para esconder nossas fraquezas. A bem da verdade, é que parece impossível fugir da dor. Então eu corro, corro, corro e continuo no mesmo lugar.
Sobre o menino
Publicado por Anna Luiza Azevedo em Escritos em 06/09/2011
Para ler ao som de Rolling in the Deep, pois assim foi escrito.
Uma escritora muito querida por mim certa vez disse, “Adele dominou o mundo porque todos já passaram pelo momento ‘We could have had it all’. Quem não passou pode ir se preparando. Dói.”
Verdade. Clara Averbuck tinha mesmo toda razão. Dói. E quem alguma vez já leu qualquer texto meu já deve saber dos meus ‘We could have had it all’. Porque eu já tive alguns. Porque eu já escrevi sobre eles. Porque eles me doeram muito. E todo fim é mesmo sempre assim, não? As lágrimas que teimam em cair nos fazem lembrar mesmo disso: de tudo aquilo que nós poderíamos ter tido e sido e que não tivemos e não fomos.
Sobre o menino não poderia ser diferente. Eu poderia sim ter tido e sido tudo com o Homem de barba. Talvez. Ou até mesmo quem sabe com o Rapaz de Turim. Vai saber. Em dois-mil-e-onze porém, eu quis ter tudo com o menino. Com o meu menino. Porque eu me encantei e me deixei encantar por ele e por tudo aquilo que nós poderíamos ter e ser.
Não tivemos. Não fomos. E por isso então esse deve ser o texto mais triste que eu já escrevi. Porque é vazio. Porque nossos jeitos e gênios nunca permitiram nem permitiriam que nós tivéssemos tudo. Eu fui nada para o menino querendo ser tudo. Ele foi nada para mim porque não conseguiria mesmo ter sido coisa alguma.
Mas nós nos amamos. Tivemos sim o coração um do outro. Mas e aí? E aí nada. Não se constrói uma vida nem uma história só de amor. Só de amor se faz um texto, mas não se vive. Não vivemos. A bem da verdade é que o meu menino, vai ver por ser tão menino, nunca se permitiu viver. E eu? Ah, eu tentei. Juro que tentei. E muito. Alguns dias acordava com vontade de segurá-lo pelo rosto e berrar para fazê-lo acordar e viver. “Ei, não deixa a gente se perder não. Não me manda mais embora.” As pessoas dão aquilo que tem para dar. Aquele amor jamais viria. Ele nunca existiu. Ou existia, só que por baixo de tantas inseguranças e paredes que ele foi criando para proteger o próprio coração e assim então não se machucar. Mas assim então também não amar.
Eu vi muito de mim mesma no menino. E eu quis ser pro menino o que um dia um homem de barba foi para mim. E quis que ele entendesse que não devíamos apostar sempre no desamor. E quis dizer todos os dias o quanto eu o amava para que ele acreditasse, mesmo que no minuto seguinte ele esquecesse. Eu quis curar os medos e os receios dele tal como alguém um dia curou os meus. Nós teríamos tudo. Nós poderíamos ter tido tudo. Mas não tivemos.
O menino tantas vezes me mandou embora, foi embora, me deixou ir embora. Negou meu amor, negou amor, se negou ao nosso amor. Eu, que também tenho lá meus limites e minhas dores, fui cansando de tentar fazer com que nós tivéssemos tudo. Eu fui perdendo a fé. Nele. Na gente. Em mim.
E o que é mesmo a fé senão isso que nos faz arriscar tudo sem ter prova alguma de que vai dar certo? Fé é absurdo. É não ter razão alguma para crer, não possuir nenhum argumento, nenhuma prova e mesmo assim colocar toda uma vida em jogo. Aquele que crê e que tem fé, não prova absolutamente nada. Sente. Eu, aos poucos, fui deixando de sentir. E por isso minha história com o menino é tão triste. Porque foi se esvaindo. Pelas dores. Pelos dedos. Pelo tempo. E se perdeu.
The scars of your love remind me of us, they keep me thinking that we almost had it all. The scars of your love, they leave me breathless. I can’t help feeling that we could have had it all. Rolling in the deep. You had my heart inside of your hand. Mas ele jogou fora.




