Arquivo de novembro \27\UTC 2011

Qualquer abismo

“Aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor:
onde um homem projeta seu perfil e pergunta atônito:
em que direção se vai?”
(Adélia Prado em O Coração Disparado)

Eu te contei que tenho escrito feito louca porque tenho estado mesmo meio louca. E sempre meio bêbada. E sempre meio fedida a cigarro. Acordei ontem no meio da noite procurando um fumo e me senti meio suja assim fumando na cama, fumando no meio do sono, do sonho. Aí eu te disse sei lá, que tenho estado mesmo meio louca por causa do namoro que eu terminei, de Kafka e desses meus supostos amores que eu busco toda vez que preciso preencher vazios. Te falei isso, não falei? Não lembro. Tenho estado meio louca também porque já não lembro. Nem o que tenho de fazer, o que deveria dizer. O quarto cheio de post-it pelos cantos para lembrar a vida, pra lembrar de escovar os dentes e de sacodir a poeira. Uma hora eu vou ter de sacudir a poeira, eu sei. Mas logo eu, justo eu? Tomo remédio para conseguir viver a vida, mas não consigo tomar o remédio, entende? Aí nada anda porque nada começa. E eu continuo aqui esticando o braço no meio da noite em busca de um cigarro só para dormir. E vou escrevendo escrevendo escrevendo e espero lançar um livro, mas sei lá quando eu vou conseguir publicar um livro. E eu nem sei se quero mesmo publicar um livro. E eu nem posso ainda escrever ficção, imagina. Virginia Woolf que disse naquele livro lá que não é nem bem um livro, eu acho. “Para escrever ficção, uma mulher precisa ter dinheiro e um quarto próprio.” Não tenho nem uma coisa nem outra, aí fico louca escrevendo textos para ninguém ler e me escondendo para ninguém ver. Entende como isso é um saco? Esse vazio, esse abismo. Daí fico feito puta buscando amores e migalhas de amores e migalhas de migalhas de amores por conta do namoro mais um que não deu certo e eu já nem sei nem mais o porquê. Me fala doce, já que só você tem mesmo esse jeito tão doce de me dizer verdades que eu nem gosto de escutar, que eu não sei me relacionar ou que eu não nasci para isso ou que ele era um merda ou que eu ainda vou encontrar meu príncipe encantado, só pra eu guardar aqui nesse vazio enorme algum resto de esperança dessa coisa que a gente gosta de chamar de amor.
Hoje eu resolvi ler Clarice falando de dor como sempre leio quando aqui dentro parece doer e pulsar o tempo todo. Nem cigarro acalma. Nem porre mais tem ajudado. É como o Caio gostava de dizer, tem sempre algo ausente que faz falta, parafraseando a Camille Claudel. Será, cara? Será que eu vou um dia acabar que nem ela? Em hospício falando de amor? Vou acordar um dia desses procurando o cigarro para aguentar sonhos e pesadelos e perceber assim com muita dor que não adianta porra nenhuma escrever? E na parede um post-it avisando: não se esqueça de escovar os dentes. Sei lá.

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Não tem mais amendoeira

A janela do quarto agora fica fechada. Fechada porque sexta-feira passada cortaram a árvore que tinha aqui na frente do meu prédio. Ela ficava bem em frente a minha janela. Janela essa que só ficava aberta mesmo por causa dos passarinhos. Os mesmos passarinhos que pareciam gostar de me acordar de manhã-cedo ou manhã-tarde, quando o dia já estava mais do que começado e eu cismava em ficar na cama entre lençóis que guardavam ainda seu cheiro de uma noite dormida aqui. Aí, já que não tem mais passarinho nem árvore, não tem também desenho de folha na parede vindo de qualquer luz que conseguia enganar os panos da cortina e entrar e banhar o quarto e desenhar no armário, na parede, no cabide de bolsas.
Não tem.
Não tem mais doce de leite.
Não tem mais o cheiro nos lençóis.
Não tem mais riso.
E também não tem mais choro.
Não tem. Acabou você, tal como acabou a árvore que eu gostava tanto.
Quando eu vim morar aqui, ela alcançava a janela do primeiro andar. Veja só como age o tempo: ela já havia chegado na janela do terceiro. O problema é que conforme ela foi crescendo e crescendo e crescendo, as raízes foram também levantando e ela estava tão grande mas tão pouco firme que começou a tombar. Eles até podaram algumas vezes, mas não tinha mais jeito. Uma hora ou outra ela ia acabar virando e caindo em cima de alguém, algum carro. Tudo porque já não estava firme o suficiente no chão. Daí fiquei pensando hoje enquanto encarava a janela fechada e já sem as folhas e os passarinhos e tudo o mais que eu sempre gostei de ter tão perto dos meus olhos, se isso também não teria acontecido com a gente. Será que não fomos nos nutrindo de tantas coisas que não eram necessariamente boas, só eram muitas, que no fim acabamos mesmo que nem a árvore? Tombando? E aí a solução única que tinha era mesmo cortar a gente pela raiz, já que só de poda não estava sendo suficiente? Será que aí por mais beleza que a gente sustentasse, fossem passarinhos ou desenhos nas paredes do quarto de alguma moradora do segundo andar, será que beleza alguma salvaria a gente? Íamos mesmo acabar tombando em cima de algum carro estacionado ou de alguém passando na rua?
E eu gostava tanto dessa árvore.
E eu gostava tanto da nossa árvore.
Pena que tombou.

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Sol e choro

O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente.
(O Teatro Mágico – O Anjo Mais Velho)

Olha, eu queria te contar que hoje eu andei toda aquela merda de praia, num puta dia lindo que tava, só pra sentir a exaustão do peito no corpo. Sabe como? E fui andando e andando até meu joelho, que já não é muito bom, doer e me mandar sentar. Aí quando sentei, com aquele sol de primavera beijando os ombros, comecei a chorar porque não tinha mesmo mais necessidade alguma de ficar sustentando o insustentável. Eu estava despedaçada. Por dentro e por fora. E fiquei trocando confidências com o Sol, com Iemanjá, sentindo aquela sensação de areia tocando a pele que eu tanto disse pra você uma vez que eu gostava e que tanto me faz sentir a natureza. O dia tava foda. A verdade é que todos os dias tem sido fodas. E eu não to mais aguentando porra nenhuma porque ainda não tinha nem me dado conta mas você me deixou numa coisa assim que eu chamaria de limite. Limite de ser. Sabe como? Quase um passo do precipício. E nem quero ser dramática não que eu eu sei que você não suporta. Mas, caralho, nessa de de repente morrer desidratada, eu chorei tanto mas tanto e tanto como nunca chorei na porra da vida toda. Porque eu não estava mais suportanto, porque não cabia mais nada aqui dentro. E eu precisava me desafogar de você. E tudo porque eu fui te engolindo e te engolindo e colocando para dentro de mim tantas coisas suas e nossas que, hoje, quando fui ver, não tinha mais espaço nem pra altinha, nem pra agua de coco, nem pro slackline. Não tinha domínio, não tinha o que nutrisse, não tinha como equilibrar. Aí eu saí andando e andando e andando e andando e andando e andando. E fui passando por tantos lugares e revivendo tantos mais que me traziam você, que quando eu sentei por ordem do meu joelho, eu tive de te colocar para fora. Sabe como? Eu precisava dessa coisa de autoexorcismo para me livrar e parar de te ter aqui dentro tão a toa. Porque a verdade é que eu te engoli e engoli tantas coisas que você disse e tantas coisas que você fez e tantas coisas mais que você pensou, e tudo isso tão à toa, que não bastariam nem sete ondas, nem sete rosas, nem vela, nem pirâmide. Eu precisava primeiro tirar você. E te deixar ir. E te perdoar dentro de mim por todas essas coisas que eu sei que não perdoo. A verdade é que não adianta o quanto eu chore nem sal grosso nem arruda, eu preciso primeiro me libertar dessa culpa e desse rancor de tudo o que você fez e que me afoga e que me faz perder dominios e equilibrios. E assim quem sabe, deixando de te odiar, deixo de te amar também. Daí levanto. Me ergo sobre o joelho que já não dói mais e continuo andando e andando e andando e andando e andando. Até alguma coisa que eu não sei quando chega. Até alguma coisa que eu nem sei onde está. Sabe como?

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