O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente.
(O Teatro Mágico – O Anjo Mais Velho)
Olha, eu queria te contar que hoje eu andei toda aquela merda de praia, num puta dia lindo que tava, só pra sentir a exaustão do peito no corpo. Sabe como? E fui andando e andando até meu joelho, que já não é muito bom, doer e me mandar sentar. Aí quando sentei, com aquele sol de primavera beijando os ombros, comecei a chorar porque não tinha mesmo mais necessidade alguma de ficar sustentando o insustentável. Eu estava despedaçada. Por dentro e por fora. E fiquei trocando confidências com o Sol, com Iemanjá, sentindo aquela sensação de areia tocando a pele que eu tanto disse pra você uma vez que eu gostava e que tanto me faz sentir a natureza. O dia tava foda. A verdade é que todos os dias tem sido fodas. E eu não to mais aguentando porra nenhuma porque ainda não tinha nem me dado conta mas você me deixou numa coisa assim que eu chamaria de limite. Limite de ser. Sabe como? Quase um passo do precipício. E nem quero ser dramática não que eu eu sei que você não suporta. Mas, caralho, nessa de de repente morrer desidratada, eu chorei tanto mas tanto e tanto como nunca chorei na porra da vida toda. Porque eu não estava mais suportanto, porque não cabia mais nada aqui dentro. E eu precisava me desafogar de você. E tudo porque eu fui te engolindo e te engolindo e colocando para dentro de mim tantas coisas suas e nossas que, hoje, quando fui ver, não tinha mais espaço nem pra altinha, nem pra agua de coco, nem pro slackline. Não tinha domínio, não tinha o que nutrisse, não tinha como equilibrar. Aí eu saí andando e andando e andando e andando e andando e andando. E fui passando por tantos lugares e revivendo tantos mais que me traziam você, que quando eu sentei por ordem do meu joelho, eu tive de te colocar para fora. Sabe como? Eu precisava dessa coisa de autoexorcismo para me livrar e parar de te ter aqui dentro tão a toa. Porque a verdade é que eu te engoli e engoli tantas coisas que você disse e tantas coisas que você fez e tantas coisas mais que você pensou, e tudo isso tão à toa, que não bastariam nem sete ondas, nem sete rosas, nem vela, nem pirâmide. Eu precisava primeiro tirar você. E te deixar ir. E te perdoar dentro de mim por todas essas coisas que eu sei que não perdoo. A verdade é que não adianta o quanto eu chore nem sal grosso nem arruda, eu preciso primeiro me libertar dessa culpa e desse rancor de tudo o que você fez e que me afoga e que me faz perder dominios e equilibrios. E assim quem sabe, deixando de te odiar, deixo de te amar também. Daí levanto. Me ergo sobre o joelho que já não dói mais e continuo andando e andando e andando e andando e andando. Até alguma coisa que eu não sei quando chega. Até alguma coisa que eu nem sei onde está. Sabe como?





#1 by Stéphanie Chauvin on 22/11/2011 - 10:53 pm
você é uma pessoa que eu adoraria beber uma cervejinha, cigarrinho mil, trocando experiências sobre “coeurs ouverts et coeurs fermés”. se eu não puder te garantir boas risadas e alguns “exatamente”, eu garanto pelo menos uma boa cerveja!
vamos lembrar disso antes da gente se formar ok?