Não tem mais amendoeira

A janela do quarto agora fica fechada. Fechada porque sexta-feira passada cortaram a árvore que tinha aqui na frente do meu prédio. Ela ficava bem em frente a minha janela. Janela essa que só ficava aberta mesmo por causa dos passarinhos. Os mesmos passarinhos que pareciam gostar de me acordar de manhã-cedo ou manhã-tarde, quando o dia já estava mais do que começado e eu cismava em ficar na cama entre lençóis que guardavam ainda seu cheiro de uma noite dormida aqui. Aí, já que não tem mais passarinho nem árvore, não tem também desenho de folha na parede vindo de qualquer luz que conseguia enganar os panos da cortina e entrar e banhar o quarto e desenhar no armário, na parede, no cabide de bolsas.
Não tem.
Não tem mais doce de leite.
Não tem mais o cheiro nos lençóis.
Não tem mais riso.
E também não tem mais choro.
Não tem. Acabou você, tal como acabou a árvore que eu gostava tanto.
Quando eu vim morar aqui, ela alcançava a janela do primeiro andar. Veja só como age o tempo: ela já havia chegado na janela do terceiro. O problema é que conforme ela foi crescendo e crescendo e crescendo, as raízes foram também levantando e ela estava tão grande mas tão pouco firme que começou a tombar. Eles até podaram algumas vezes, mas não tinha mais jeito. Uma hora ou outra ela ia acabar virando e caindo em cima de alguém, algum carro. Tudo porque já não estava firme o suficiente no chão. Daí fiquei pensando hoje enquanto encarava a janela fechada e já sem as folhas e os passarinhos e tudo o mais que eu sempre gostei de ter tão perto dos meus olhos, se isso também não teria acontecido com a gente. Será que não fomos nos nutrindo de tantas coisas que não eram necessariamente boas, só eram muitas, que no fim acabamos mesmo que nem a árvore? Tombando? E aí a solução única que tinha era mesmo cortar a gente pela raiz, já que só de poda não estava sendo suficiente? Será que aí por mais beleza que a gente sustentasse, fossem passarinhos ou desenhos nas paredes do quarto de alguma moradora do segundo andar, será que beleza alguma salvaria a gente? Íamos mesmo acabar tombando em cima de algum carro estacionado ou de alguém passando na rua?
E eu gostava tanto dessa árvore.
E eu gostava tanto da nossa árvore.
Pena que tombou.

  1. #1 by André on 02/12/2011 - 12:29 am

    Enquanto eu fui lendo já foi se tornando um dos meus favoritos. Senti um ar de leveza que tá entremeado nele todo, e aí mesmo não sendo talvez o foco para mim acabou dando o tom.

  2. #2 by Felipe B. on 11/12/2011 - 1:04 am

    Também sou desses que marcam o tempo e certas pessoas pelas árvores. Procure “Não Tem Mais Flamboyant” no meu blog. Aliás, grata coincidência os títulos de nossos textos! Florestas de alegria e gente para ti, moça!

  3. #3 by Anna Luiza Azevedo on 12/12/2011 - 1:21 am

    Não por coincidência, Felipe. Justo o Flamboyant que li há tanto tempo atrás me serviu de inspiração para o título. Beijos!

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