“Aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor:
onde um homem projeta seu perfil e pergunta atônito:
em que direção se vai?”
(Adélia Prado em O Coração Disparado)
Eu te contei que tenho escrito feito louca porque tenho estado mesmo meio louca. E sempre meio bêbada. E sempre meio fedida a cigarro. Acordei ontem no meio da noite procurando um fumo e me senti meio suja assim fumando na cama, fumando no meio do sono, do sonho. Aí eu te disse sei lá, que tenho estado mesmo meio louca por causa do namoro que eu terminei, de Kafka e desses meus supostos amores que eu busco toda vez que preciso preencher vazios. Te falei isso, não falei? Não lembro. Tenho estado meio louca também porque já não lembro. Nem o que tenho de fazer, o que deveria dizer. O quarto cheio de post-it pelos cantos para lembrar a vida, pra lembrar de escovar os dentes e de sacodir a poeira. Uma hora eu vou ter de sacudir a poeira, eu sei. Mas logo eu, justo eu? Tomo remédio para conseguir viver a vida, mas não consigo tomar o remédio, entende? Aí nada anda porque nada começa. E eu continuo aqui esticando o braço no meio da noite em busca de um cigarro só para dormir. E vou escrevendo escrevendo escrevendo e espero lançar um livro, mas sei lá quando eu vou conseguir publicar um livro. E eu nem sei se quero mesmo publicar um livro. E eu nem posso ainda escrever ficção, imagina. Virginia Woolf que disse naquele livro lá que não é nem bem um livro, eu acho. “Para escrever ficção, uma mulher precisa ter dinheiro e um quarto próprio.” Não tenho nem uma coisa nem outra, aí fico louca escrevendo textos para ninguém ler e me escondendo para ninguém ver. Entende como isso é um saco? Esse vazio, esse abismo. Daí fico feito puta buscando amores e migalhas de amores e migalhas de migalhas de amores por conta do namoro mais um que não deu certo e eu já nem sei nem mais o porquê. Me fala doce, já que só você tem mesmo esse jeito tão doce de me dizer verdades que eu nem gosto de escutar, que eu não sei me relacionar ou que eu não nasci para isso ou que ele era um merda ou que eu ainda vou encontrar meu príncipe encantado, só pra eu guardar aqui nesse vazio enorme algum resto de esperança dessa coisa que a gente gosta de chamar de amor.
Hoje eu resolvi ler Clarice falando de dor como sempre leio quando aqui dentro parece doer e pulsar o tempo todo. Nem cigarro acalma. Nem porre mais tem ajudado. É como o Caio gostava de dizer, tem sempre algo ausente que faz falta, parafraseando a Camille Claudel. Será, cara? Será que eu vou um dia acabar que nem ela? Em hospício falando de amor? Vou acordar um dia desses procurando o cigarro para aguentar sonhos e pesadelos e perceber assim com muita dor que não adianta porra nenhuma escrever? E na parede um post-it avisando: não se esqueça de escovar os dentes. Sei lá.





#1 by Stéphanie Chauvin on 29/11/2011 - 6:32 am
até hoje, quando penso na Claudel, tenho vontade de cortar as bolas de Rodin. quem já deu alma e coração sabe como é se sentir Camille.