Arquivo de dezembro \01\UTC 2011
Infinitamente pessoal
Publicado por Anna Luiza Azevedo em Escritos em 01/12/2011
Continuo a pensar que quando tudo
parece sem saída, sempre se pode cantar.
Por essa razão escrevo.
(Caio F. Abreu em Pequenas Epifanias)
Salinger marcou minha vida quando o protagonista de O Apanhador no Campo de Centeio, Holden Caulfield, disse a seguinte sentença, “Por favor, ganhando ou perdendo, faça o que o seu coração pedir.” Coisa assim. Passado tantos anos, já nem me lembro ao certo se é mesmo desse livro dele ou de algum outro; o que de verdade pouco importa. Verdadeiramente, tem o mesmo sentido para mim hoje como teve há uns dez anos atrás essa frase, E por favor, ganhando ou perdendo, faça o que o seu coração pedir.
Eu vivi todos esses vinte e poucos anos assim. Fazendo o que meu coração pedisse. Ganhando ou perdendo. E estou certa de que ainda viverei tantos mais dessa mesma forma também. Ou não exatamente da mesma forma porque me incomoda muito a ideia do imutável, mas sempre deixando falar mais alto mesmo isso que a gente tem aqui dentro e que por tantas vezes sente doer, sente sofrer: o coração.
O meu, te digo com certeza, ainda sorri. Apesar dos muitos ferimentos que essa forma de viver sem pensar em ganhar ou perder acabou causando, ele sorri. Eu sorrio. Sorria também. O término não é o fim. Pelo menos, nunca o foi para mim. Encaro e encarei todo e qualquer término como um novo começo. Tenta ver as coisas assim também. Faz parecer mais doce (ou menos amargo). Sempre gostei de brincar com aquela música do Los Hermanos em que ele diz que “todo carnaval tem seu fim”. E, certa vez, passei um carnaval inteiro tentando me recuperar de dores no coração e repetindo para mim mesma a frase invertida: todo fim tem seu carnaval.
O nosso, pra mim, não tem sido muito de comemoração ao estilo mais carnavalesco de todos. Eu sofri muito ao seu lado. E sofro também sua ausência. Mas passa. Tudo passa. O que não dá mais (ou não dava) era sustentar o insustentável. Eu não poderia fazer a tarefa de dois. De nós dois. Eu precisava e precisei muito que você fizesse a sua parte. E insistia as vezes aos prantos, as vezes aos berros tentando te fazer entender a coisa mais simples do mundo: eu precisava de você. Eu não teria conseguido remar, re-amar (lembra?) sozinha. E tudo isso sem a ilusão do perfeito, que fique claro. Eu tenho muito claro que erros existem. Eu erro e errei diversas vezes, mas eu não vivia o erro, apesar de você sempre ter gostado de dizer que eu preferia dar mais valor às coisas ruins do que às boas. Era só o seu discurso que não te deixava ver o quanto eu valorizava mais as coisas que eram boas. Porque eram poucas e ainda sim eu estive ali do seu lado, lutando pela gente e dando o meu melhor. Eu acreditava.
Aprendi certa vez que valor não se dá, valor se reconhece. E digo que aprendi, mas não sei bem se aprendi muito não. Eu busco aprender, melhor assim. Nessa de muito me doar e muito me dedicar, eu acabo sempre fazendo pelos outros, prestando atenção nos outros, cuidando dos outros e esqueço de uma peça fundamental nessa história toda: eu mesma. E então não faço por mim, não presto atenção em mim, não cuido de mim. É que eu acho “mim” e “eu” tão egoístas que vivo um altruísmo quase suicída. Com você, eu acabei morrendo. Me matando e me deixando matar. Me dedicando mais do que eu deveria a você, menos do que deveria a mim. E mais do que você talvez merecesse. Não te culpo. Não há valor a ser dado a nada disso. Ou você reconhece ou não. Eu reconheci o engano talvez um pouco tarde, ou ouvi demais o coração sem a menor pretensão de ganhar ou perder, que não consegui perceber que fui perdendo meu próprio coração ao passo que não ganhava o seu. É duro sim. É duro assim.
Mas um dia passa.
Você tem as suas questões, eu as minhas. Cada um com as suas. Isso não importa. O que nos faz diferente é como cada um lida com as próprias questões. É preciso estar em paz consigo mesmo. Eu, na minha loucura de fazer o que meu coração pede, sei ser feliz assim. Lembra que eu escrevi que ele, meu coração, sorri? Tenta pensar em você e nessas suas racionalidades e nas suas certezas e nas suas muralhas… Não há problema nenhum em ser assim desde que isso te faça feliz. Ao meu ver, o problema das muralhas é que como nada entra, nada sai. Certezas são imutáveis então não se constrói nada de novo. Racionalidade te impede espontaneidade. Você não sente nenhum sentimento que se construa no peito. Só os da mente. Ninguém acessa seu coração. Nem mesmo você. Se você consegue ser feliz assim, então seja. Assim e feliz. Eu é que não posso. Eu é que não consigo ser feliz ao lado das suas certezas que não parecem nem tão certas, não consigo conviver com todas as suas racionalidades ofensivas. Nem com essa sua muralha no peito. É ela que te faz pesado. Para namorar é preciso leveza. Não soubemos ou não conseguimos ter.
E com o passar dos dias, que podem até parecer poucos mas não são, eu fui cansando. E nosso fim foi anunciado pelo meu cansaço. Se você também fosse dedicado a fazer esse namoro andar, ele não teria parado à minha fraqueza, entende? A gente só acabou porque minhas forças acabaram, e através de um processo que não precisa nem ser muito racional é possível entender que quem fazia esse namoro era eu. E eu cruzei os braços em um determinado momento. E nós não duramos nem bem mais que uma semana depois disso.
Você precisa entender que você também precisa lutar pela coisas. Ganhando ou perdendo. Ouça a razão, ouça o coração, joga tarô, faz astrologia. Pouco importa de onde é que vem o que te move, o importante é se mover. E agora então eu posso até citar o Charles Kettering, quando ele diz que sempre há uma chance de você tropeçar em algo maravilhoso quando estiver andando, seguindo em frente. Nunca ouviu-se falar em ninguém que tivesse tropeçado em algo enquanto estava sentado, não é verdade? Mandar um email me dizendo todas essas coisas que você escreveu é dar um passo. Mas não posso te garantir a vitória. Você teve seu tempo. Nós tivemos. E enquanto você estava parado, eu estava matando meu coração. Hoje então não tem mais nada disso.
A uma semana atrás, naquela quinta-feira que eu te liguei, foi o dia-do-meu-limite. Aquela conversa pode ter parecido semelhante a todas as outras para você, mas foi esse clichê de um-divisor-de-águas-para-mim. Era chegado o momento de eu pensar em mim e em como eu quero viver a minha vida daqui para frente e com quem e que coisas eu estarei disposta a aceitar e quais não. Tem tanta coisa que eu aguentei calada. E tantas mais que eu falei para ninguém me ouvir. Você nunca pareceu me ouvir. E tive tanto que ouvir você e fazer por você recebendo tão pouco em troca, sabe. Amor também esgota.
“Por favor, ganhando ou perdendo, faça o que o seu coração pedir.”
Te perdendo ou te ganhando, meu coração tá pedindo aquilo que eu tanto dei e pouco recebi.
Amor.
Amor-próprio.
Anna.
P.S.: Ouvi esses dias um alguém doce me dizer “Você é tudo o que você tem”. Foi duro, mas foi o que me levou a escrever. E a viver de novo.




