Arquivo de janeiro \26\UTC 2012

Don’t cry for me, argentino

Love is the answer. But while you’ re waiting for the answer, sex raises some pretty interesting questions.
Woody Allen

Quando Paulo escreveu que sentia minha falta e que vinha pensando bastante em mim nos últimos dias, eu cheguei a escrever no meu Twitter que Ele havia retornado e que em breve haveria novas emoções. Pois bem, eu, muito arrasada e curtindo a fossa do nenhum-relacionamento-meu-dá-certo-ó-vida-ó-azar, me recuperei rapidamente e fiquei feliz PARA CARALHO (assim em caixa alta mesmo e nesses termos para que se faça jus à situação). Certo que sexo nenhum curaria toda a minha depressão de namoro falido, porque sexo não resolve nada. Se resolvesse, a indústria farmacêutica venderia mais Viagra que Lexotan. Mas não vende. Logo, não resolve. Mas ajuda. E como ajuda. Sendo Paulo então, talvez eu abandonasse de vez o Rivotril e o Rio de Janeiro e fosse passar noites em claro na Argentina com o sujeito.
Comprei passagem e avisei quando iria, que me esperasse e que não casasse ate lá. Porque né?! Vai que. E foi. Quer dizer, fui. Na mala, livros e lingerie. Talvez eu me mudasse para Buenos Aires, sei lá. Acabei sabendo lá, já na terra do Tango e comprando um livro de Jorge Luis Borges que Paulo estava enamorado. E putz. Sorte a minha ter reservado hostel ainda que com convite de hospedagem e vidinha de casal. É que depois dos primeiros sumiços e mudança do rapaz eu não quis parecer apaixonada e falei que ficaria num hostel porque queria privacidade e não queria também atrapalhar a rotina do homem. Tudo mentira. Tinha só receio que dessa vez o país escolhido para a mudança fosse do outro lado do mundo. E a Argentina então ficaria pequena demais para a minha dor.
Ele não casou, eu acho. Mas trocou corações e recados de saudade pelo mural do Facebook, e já bastava eu de enrolada com romances novos e antigos. Eu tinha muita coisa pra ver e os argentinos são galanteadores demais para que eu sofresse mais uma vez por Paulo.
Eu sofri, confesso. Chorei por quase três horas e fiquei praticamente um dia inteiro sem conseguir comer. Até que uma amiga, depois de ler toda a história que eu havia lhe mandado por e-mail, me respondeu em uma linha Porque você foi atrás desse homem? Eu encarei o teclado e aquela pergunta por quase, sei lá, quarenta e cinco minutos sem saber o que responder. Eu vim pra treinar meu espanhol e comprar alfajor. Ele seria lucro. Mentira. Eu vim porque sou apaixonada por tango, ué. Não. Eu não vim atrás dele, eu queria viajar e só. Também não. Eu tinha ido mesmo atrás do Paulo. Ou melhor dizendo, do pau-lo. Mas só porque estava com saudade e porque ele sempre aparecia com essa história de “gosto de você” e “vem pra cá dormir comigo”. Aí eu fui lá dormir com ele, gostar dele e de mim juntos e conhecer outro país. De repente esquiar, vai saber. Mas para variar ele sumiu, casou, fugiu. Como em outras vezes, como em outros textos.
Quarenta e cinco minutos depois, eu saí andando pela Calle Charcas e um sujeito falou para mim alguma coisa que de tão rápido eu não entendi, mas que se parecia com “punheta”. E foi exatamente nessa hora que tive uma espécie de epifania e entendi tudo. O cara provavelmente não falou punheta para mim, mas Paulo com certeza era uma punheta. Fica ali assim, mas nada, sabe como?! Punhetinha de Facebook, de MSN, de vida. Faz que vai comer, mas de verdade não come. Porque na hora H, pau-lo peida. Quer dizer, some. Ou foge ou se muda para um outro país.
Não culpo Paulo. Não por não querer nada mais sério comigo. Culpo-o por achar que EU queria algo mais sério com ele. Tá, até quis. Ano passado. Mas ele me deu um bolo. Dois! E se mudou pra Argentina. Depois disso era mesmo só sacanagem. Só de sacanagem. Só Lexotan, nada de mais. Eram só Buenos Aires (e novos), porque com o término eu estava mesmo precisando fugir um pouquinho daqui e de mim.
Que ele não gostava de mim, eu sempre soube. Ele só queria me comer. E enquanto ele me comia estava tudo ótimo. Mas agora nem isso. Fica só nessa merda de punhetinha de conversa virtual e dizendo que pensa em mim e que sente minha falta e que quer meu cheiro na cama dele e blá-blá-blá. Cansei. Desapeguei. Desencantei. Desisti. E fui ouvir Cumbia na Argentina mesmo e acabei encantada por Julián.
Julián, que é até mais bonito que Paulo ainda que não seja tão incrível quanto pau-lo. Lindos olhos verdes, um belo sorriso e a boca mais bonita de toda a República Argentina, vou te dizer. Mas Julián, tadinho, quer vir ao Brasil me ver. E eu? Eu desconverso, não respondo, sumo uns tempos. Depois reapareço e digo que estou com saudade, que tenho pensado muito nele nos últimos dias. “Vem pro Brasil. Tô sentindo falta do seu cheiro.” Tô virando uma punheteira, vai entender.

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Que noite, Celestino

Trago aqui despedaçado
Teu retrato, pois vingado
Hoje está o meu amor.
(Cândido das Neves)

Eu comprei um cd do Vicente Celestino porque naquela época as pessoas morriam de amor. E eu acho muito bonito essa coisa toda de amar até morrer, até doer. De cantar a dor, de cantar com dor. Tudo bem que naquela época as pessoas morriam até de gripe, então morrer de amor não era nem tão difícil assim. Mas como eu gosto mesmo de achar que hoje as pessoas quase não amam tal como quase não ficam gripadas, comprei o cd, acendi um cigarro e fiquei aqui ouvindo uma dor de cotovelo maior do que qualquer uma que eu já tenha tido durante todos esses anos de vida e de amor.

O ébrio me lembrou um relacionamento meu. Ou melhor, me lembrou eu mesma depois do fim de um relacionamento meu. “Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer aquela ingrata que eu amava e que me abandonou.” Acho que foi quando eu realmente comecei a beber. E vivia cambaleando e chorando pelo homem que se foi. O álcool não só não trouxe o homem de volta, como também não fez passar a dor de corna. Só me fez entender aquela conversa de que todo castigo para corno é pouco, e olhe lá.

É, foi foda. Porque é foda. Amar é foda. Se entregar é foda. Se decepcionar também é foda. Mas acontece.

E ouvindo ele cantar a dor assim de maneira tão doída, e por isso então tão linda, é que eu fico pensando que se for pra sofrer essa beleza ou morrer dessa beleza, então eu ainda vou amar muito. E mais. E muito mais.

Foi ouvindo ele cantar o retrato despedaçado do amor que foi, os versos rasgados do infeliz que um dia amou, que cantei em coro ao coração e à dor de Vicente Celestino, e “Pensei também ser ingrato. Meu coração bem vês, já não te quer. Eu ontem rasguei o teu retrato ajoelhado aos pés de outra mulher.”

Digo, homem. Quem sabe a gente morra mesmo é de gripe.

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A vez do striptease

Peça por peça. Só posso olhar. E ao fundo uma música que eu só sei mesmo dizer que é lenta. A atenção voltada às formas não me permite raciocinar. BB King talvez. É lenta, disso eu sei. E só sei porque o corpo todo se move lento e o mundo inteiro também e tudo junto e ao mesmo tempo e agora e assim e sem vírgula e nem por isso sem sentido ou errado. (Ele tira a blusa) À meia luz, são apenas sombras pele músculos cheiro de perfume tesão e BB King ao fundo. Ele é capaz de fazer o tempo parar. Parafraseando Hemingway, é como se o chão estivesse se movendo, e eu morrendo. Ele dança. Preciso, lento, lindo. E morte. Porque dá pra morrer por um homem que dança desse jeito. Porque dá pra morrer por um rebolado assim. (Ele abre a calça) E eu não posso tocar porque fizemos um acordo. Eu esperaria o fim da dança, o revelar do corpo. O cair da última peça, só então eu posso tocar. Até lá eu só posso olhar. É quase doído esse não poder fazer nada. Não poder tocar nem para auxiliar o abrir da calça. Mas como era mesmo a frase do Hemingway? Foi o mundo que girou ou foi a terra que se moveu? Não lembro. Sei que Jordan estava com Maria e eles sentiram a terra se mover, coisa assim. E ela está se movendo agora. Ou será essa poltrona? (Ele vira de costas e abaixa a calça) Não! Nessa hora eles sentem como se estivessem morrendo. Porque eles se amavam tanto que sentiam como se quisessem morrer quando estavam se amando. É, é isso mesmo. Será que eu posso amar essa cueca preta? Posso querer morrer por essa cueca preta? Estou querendo. Verdade, a guerra deles era outra. A minha não é nem bem uma guerra; sou só eu brigando contra essa minha vontade de pular nesse homem antes que ele tire toda a roupa. E a música? Não estava tocando uma música? Ah, sim. É BB king, tenho quase certeza. Ou não. A bem da verdade é que meus sentidos parecem tão hipnotizados que não consigo distinguir nem sons nem cores. Acho que acabou a música. Mas falando em cores, parece tão escuro aqui. Só vejo ele. Só enxergo o corpo dele. E os olhos dele me encarando. Acho que ele vai tirar a cueca. Não, alarme falso. Quem foi mesmo que inventou o striptease? Alguém nos anos 20, com certeza. Naquela época as pessoas sabiam viver. Ou quem sabe antes. Mas por que ele não tira logo essa cueca? Por que? Ele tem pernas grossas. Posso fazer coro de “Tira, tira”? E o que será que ele faz pra ter pernas assim? (Ele tira a cueca) São lind… Opa! Agora já pode tocar!

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