Arquivo de 17 janeiro, 2012

Que noite, Celestino

Trago aqui despedaçado
Teu retrato, pois vingado
Hoje está o meu amor.
(Cândido das Neves)

Eu comprei um cd do Vicente Celestino porque naquela época as pessoas morriam de amor. E eu acho muito bonito essa coisa toda de amar até morrer, até doer. De cantar a dor, de cantar com dor. Tudo bem que naquela época as pessoas morriam até de gripe, então morrer de amor não era nem tão difícil assim. Mas como eu gosto mesmo de achar que hoje as pessoas quase não amam tal como quase não ficam gripadas, comprei o cd, acendi um cigarro e fiquei aqui ouvindo uma dor de cotovelo maior do que qualquer uma que eu já tenha tido durante todos esses anos de vida e de amor.

O ébrio me lembrou um relacionamento meu. Ou melhor, me lembrou eu mesma depois do fim de um relacionamento meu. “Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer aquela ingrata que eu amava e que me abandonou.” Acho que foi quando eu realmente comecei a beber. E vivia cambaleando e chorando pelo homem que se foi. O álcool não só não trouxe o homem de volta, como também não fez passar a dor de corna. Só me fez entender aquela conversa de que todo castigo para corno é pouco, e olhe lá.

É, foi foda. Porque é foda. Amar é foda. Se entregar é foda. Se decepcionar também é foda. Mas acontece.

E ouvindo ele cantar a dor assim de maneira tão doída, e por isso então tão linda, é que eu fico pensando que se for pra sofrer essa beleza ou morrer dessa beleza, então eu ainda vou amar muito. E mais. E muito mais.

Foi ouvindo ele cantar o retrato despedaçado do amor que foi, os versos rasgados do infeliz que um dia amou, que cantei em coro ao coração e à dor de Vicente Celestino, e “Pensei também ser ingrato. Meu coração bem vês, já não te quer. Eu ontem rasguei o teu retrato ajoelhado aos pés de outra mulher.”

Digo, homem. Quem sabe a gente morra mesmo é de gripe.

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