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Velho maldito
Publicado em Escritos em 25/05/2012
sei que em alguma noite
em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios
canções como as que nenhuma rádio
toca
toda a tristeza, escarnecendo
em correnteza.
Charles Bukowski, Provaremos as ilhas e o mar. In: Love is a Dog from Hell.
Esteira
Publicado em Escritos em 21/05/2012
Ao som de Set Fire To The Rain,
correndo e escrevendo.
Há dois meses, eu entrei na academia. Dessa vez, diferente das muitas outras, eu entrei com dezessete quilos de massa gorda para perder e muitas celulites para fazer sumir. Eu tinha dedicado tanto tempo no meu último relacionamento a cuidar do outro que um belo dia tirei a roupa na frente do espelho e chorei. Essa coisa de mulherzinha mesmo de se sentir insegura com o próprio corpo e feia por conta de uns quilinhos a mais (no meu caso, uns três). Eu, que como feito uma porca, não conseguia parar nem com o cigarro, imagine com o chocolate. Resolvi que precisava mudar de vida. E lá fui eu para a porra da academia. Eu não gostava do ambiente. Meu lado prepotente e arrogante adorava olhar as mulheres saradas com suas bundas super duras e pensar que enquanto elas malhavam quadríceps, eu lia quarenta e sete livros em um ano. Grandes merda. Era pura insegurança. Elas com suas bundas super duras e coxas enormes faziam eu me sentir mesmo uma magrela barriguda fedida a cigarro e metida a intelectual. Ler não preenchia o vazio que eu sentia na frente do espelho. Falava do autor um ou outro para que de repente o cara com quem eu estava dormindo não notasse que eu estava flácida. Os homens sarados eram só um bando de desmiolados que preenchiam a cabeça vazia com músculos e anabolizantes. O que na real era só recalque da minha parte porque nenhum deles queria me comer. Quem dirá saber dos meus quarenta e sete livros. Eu precisava perder os malditos três quilos! Primeiro eu cortei o cigarro, diminui a cerveja, parei com o refrigerante, limitei o chocolate aos fins de semana e resolvi correr. Depois eu me preocupei em parar de dormir tanto e manter a rotina de ir à academia todos os dias. Acabei me apaixonando por um professor, o que já servia de estímulo para 1) desconstruir preconceitos 2) ir à academia 3) ficar gostosa. A história do professor eu deixo para um outro texto, porque ela daria mesmo um bom texto. O que importa é que existem pessoas interessantíssimas com coxas enormes e anabolizantes. E metidos a intelectuais simplesmente insuportáveis. “Frequentadores de academia são mesmo estigmatizados”, pensei lembrando da bibliografia do mestrado e me sentindo uma babaca. Uma babaca com dezessete quilos de massa gorda e celulite na barriga. No meio do caminho aconteceu o inimaginável: eu peguei gosto pela coisa toda. Peguei gosto, jeito, ritmo, professor. E só não malho aos domingos porque a academia não abre. Endureci a bunda, reduzi as celulites, parei de sentir dor no joelho. Hoje, acordei cedo, fui para academia e na esteira, correndo, eu pensei na pessoa de quem eu cuidei o ano passado inteiro enquanto eu não cuidava de mim, a mesma pessoa que há tempos não invadia meus pensamentos porque deixei de alimentar o passado com qualquer migalha que fosse. E a metáfora perfeita de estar correndo tal como corri durante todos aqueles meses em que ele vezenquando me deixava no meio da rua de madrugada sem ter como voltar para casa. Ou das inúmeras vezes em que ele deu as costas para mim e para todo o meu amor e para a nossa quase vida à dois. E eu corri. E corri corri corri corri. Corri durante muito tempo. Atrás dele. Atrás de um amor que eu nunca consegui salvar. Atrás de alguém que de verdade talvez nunca tenha merecido que eu corresse tanto. E hoje foi diferente. Eu pensei nele e corri por mim. Durante meia hora, naquela maldita esteira. Pensando não no amor que foi, mas no amor novo que era esse de suar para me sentir bem comigo mesma. E nunca mais chorar na frente do espelho. E nunca mais me sentir ameaçada por mulheres de coxas enormes. E nunca mais correr por alguém não não valesse a pena. Dessa vez, vale, oras. São três quilos, porra.
Bandeira dois
Publicado em Escritos em 06/05/2012
Eu dizia: há ainda este último medo que trago,
pequena a chama bravia, e é só o que tenho.
(João Campos Nunes)
Toda vez que eu me despedia e entrava no táxi e você por entre sorrisos de adeus pedia, Avisa quando chegar, o motorista perguntava, Pra onde? e eu respondia com o peito cheio de uma angústia quase de apnéia, Pra sempre, moço. Pra sempre e pra longe.
Sentia aqui dentro, e não sei nem bem dizer onde de dentro, mas algo que mexendo revelava uma vida que eu não queria nem ver nem saber que ainda existia. Dentro, num fundo de inferno. Se foder que do chão ninguém passa. Eu passo. E descubro o inferno dentro de mim, e o magma que eu usei para cauterizar e esterelizar meu coração depois de tudo vivido nos últimos anos e meses e relacionamentos fracassados. Pesada arranhada retesada ensanguentada.
Mexe o que eu com meu inútil superpoder de criação de paredes e castelos e campos de força havia protegido para que ninguém pudesse tocar ou reviver. Aterrorizada repetia para o cara do táxi sem parar, Para sempre, moço. Bandeira dois para poupar meu coração. Preciso sair dessa, preciso ir embora.
Medo. Medo de não ter de verdade os braços e os abraços. De acabar indo mesmo pra sempre e pra longe. Medo da saudade que sinto toda vez você vai ao banheiro. Medo da vontade dos elogios censuráveis ao pé do ouvido. Medo dos lençóis impessoais nos quais me escondo ao som das suas idiossincrasias nasais enquanto bolo um plano de fuga.
Tudo para poupar e não machucar o que hoje eu descobri machucado. Vai entender. Um medo do caralho de gostar de você e só ter mesmo os sorrisos de adeus de quando eu entro num táxi. E essa desilusão de me dar conta de ser só mesmo a menina do táxi. Só a menina dos lençóis impessoais. Dos elogios censuráveis.
Preciso sair dessa, preciso ir embora.
Pra onde?
Pra sempre, moço.
E pra longe dele.
Três taças de vinho e nada mais
Publicado em Escritos em 22/03/2012
Ao som de The Scientist, do Coldplay.
O vinho seria o meu predileto como sempre, Casillero del Diablo. Tem feito muito sentido nos meus últimos meses de inferno. Astral. Mas esse já acabou. Continuou mesmo só o inferno todo de vida vazia, de coração que dói. Ele tinha toda uma playlist pronta, e eu não reclamei de nenhuma música durante a conversa de fim de dia, durante o banho dividido para tirar do corpo aquele cheiro de cansaço que dá de tanto viver. Ele disse que o cheiro da minha nuca era o melhor que ele já havia sentido. E os pequenos fios molhados de suor do cabelo curto que tem crescido tão rápido que eu não consigo tempo nem de cortar eram, segundo ele, tão lindos quanto eu. Tinha todo um trabalho nessa coisa de se deixar encantar pelo príncipe desencantado que só eu sabia mesmo o quanto pesava dentro de mim. E ali, embriagada de vinho, beijando aquela boca que não era a sua, começou a tocar a nossa música. A música do único momento lindo e sincero que eu acho que tivemos durante todo o nosso tempo que se foi.
Um dos nossos muitos retornos, uma das nossas inúmeras tentativas para ficarmos juntos. Você veio vestido de lírios amarelos, desarmado, sem barba. Na mão do boneco desenhado no cartão, seu coração para eu cuidar. Só eu sei o quanto eu tentei cuidar desse coração nunca entregue. Mas naquela noite, na noite em que tocou a nossa música, ele era meu, ele estava deitado também sobre o meu corpo suado, esmagado pelo seu corpo também suado. Nas luzes apagadas desse mesmo quarto que já não tinha mais você, nem o cheiro dos lírios, nem nada que trouxesse você ou o coração que nunca foi meu ou a nossa música. E lembrei como se aquele momento ainda fosse o nosso do seu rosto sem barba. Era você, pela primeira vez. De um jeito que eu acho que quase ninguém viu. De um jeito que eu nunca mais vi. E você era então a coisa mais linda que eu já tinha visto na vida inteira. Porque eu amava te ver nu, despido, desarmado. A gente chorava ao som do Coldplay e eu dizia no seu ouvido o quanto tinha sentido sua falta. Você me pedia desculpas por tudo aquilo que sempre fez e jurava amor eterno. Eterno. Nosso amor foi eterno. Ali. E enquanto eu tiver esse nosso único momento dentro de mim, ele continuará sendo. E você terá me amado como nunca antes e como jamais depois. E eu serei sua como sempre fui porque sempre quis apesar de você nunca ter descoberto o que fazer com isso. De nunca saber o que fazer com tudo.
Era o show do Coldplay no Rock in Rio, e a gente se amava como se fôssemos um só deitados nessa minha cama que por tanto tempo teve o seu cheiro. Na cama em que passávamos finais de semana inteiros sem abrir sequer a janela do quarto, sem comer, sem tomar banho. Eu me alimentava de você, você de mim. E eu era sua apesar de você nunca ter sido meu e nunca ter acreditado que eu era. Só na noite do show. Ali, à luz da televisão, ao som da nossa música, chorando no meu colo, abraçando meu corpo como se fosse a terra firme da vida que vai, beijando meus seios e pedindo desculpas como uma criança com medo do escuro. E eu te chamando de meu menino e desculpando todas as coisas que hoje eu já não desculpo mais e não querendo nada além daquele momento e daquela entrega e de você na minha cama molhando meu corpo com o suor do seu, você na minha vida. Você, minha vida.
Eu não poderia estragar o nosso único momento. Eu não poderia amar outro homem ao som da música do meu menino. Eu não poderia deixar que outro corpo se não o seu me envolvesse como no único momento de nós dois. Aquele momento em que o tempo pareceu parar. A primeira vez em que eu quis morrer nos braços de alguém, porque se fosse para morrer então que fosse ali, em que você era eu e eu, você. Onde nós dois chorávamos um choro só e vivíamos pela única vez um amor nosso. Desliguei a música. Embriagada que fosse, jamais tão amarga para jogar o que tinha me restado da gente fora. Não por uma noite, não por uma transa. E quis você ali. Quando a porta bateu e ele desceu o elevador, quis lírios em frente a portaria do prédio. Quis você sem barba, quis você dizendo tudo o que eu queria ouvir, quis você só mais um dia meu, só que dessa vez de verdade. Como no único momento de nós dois. Quis desenhar meu coração na mão de uma boneca de palito e dar pra você cuidar. Quis mais uma vez dar minha mão à sua para desfilarmos uma felicidade que de verdade nunca existiu.
Ele foi embora, tal como você. Me entreguei à presença da solidão. E chutei a ausência pra nunca mais voltar.
Coração chiado
Publicado em Escritos em 05/03/2012
Parece vinil riscado. Repetindo as mesmas frases na minha cabeça. No meu peito. Aí eu assumo de vez para mim mesma e para o mundo que eu não sou mais a mesma mesmo. É que um filho da puta parece ter arranhado meu coração com a chave que deveria ser usada para abri-lo. E eu não consigo mais esquecer. E não consigo mais tolerar nada daquilo que eu já tolerei tanta vezes. Chega! Disse hoje para ele que não sentia mais nada. “Broxei, perdi o interesse, não sinto mais nada.” Mentira. Eu sinto. Só que eu não sei onde. Não sei em que parte de mim. Não consigo essa coisa mais de deixar acontecer, de entrega, de fé em qualquer coisa. E não saber dói porque acho que nunca antes tive de lidar com o não saber. Eu sabia ou pelo menos achava que sabia. Aí era só se jogar porque amor não é para covarde. E tenho me sentido uma covardona. Medindo e mentindo só para não sofrer. Parece vinil riscado. Repetindo as mesmas frases na minha cabeça. No meu peito. E a mesma melodia de dor, de desamor, de descrença. Faço o que? Choro grito escrevo ligo durmo procuro esqueço? Assumo para mim mesma e para o mundo que me estragaram? Logo eu tão defensora dessa coisa existencialista de ser capaz de dar significado à própria existência? Logo eu dizendo que fizeram de mim algo com o qual nem eu mesma tenho conseguido lidar? Não me conheço. Não me reconheço. Remexo fundo aqui dentro procurando alguma coisa que eu nem sei o quê. Ou uma essência de mim que eu nem tenho mais tanta certeza assim se ainda existe. Tenho sido melodia que começa e para. Assim de repente. E volto ao início. Parece vinil riscado. Repetindo as mesmas frases na minha cabeça. No meu peito. Que merda.




